DISLEXIA

DISLEXIA

Sofia  Durães  Ivo  
(2009)

ABD - Associação Brasileira de Dislexia 

RESUMO

A dificuldade do aprendizado da leitura e da linguagem, denominada de dislexia, representa um dos muitos distúrbios de aprendizagem. Estudos desenvolvidos por diversos autores, vêm caracterizar e descrever as características deste distúrbio, facilitando seu diagnóstico precoce, permitindo, desta forma, que crianças disléxicas possam ser ajudadas o mais cedo possível.

A dificuldade de aprendizagem não caracteriza, por si só, obrigatoriamente um quadro de dislexia, esta dificuldade pode estar relacionada a diferentes fatores adversos, como; déficits sensoriais, desvantagem ambiental, fatores culturais adversos, desequilíbrios emocionais, etc., não caracterizando um quadro de dislexia. Um quadro de dislexia ocorre quando uma criança, com inteligência média ou superior, apresenta um atraso significativo em uma ou mais áreas de aprendizagem, apesar de receber instrução convencional, ter oportunidade sociocultural e com ausência de distúrbios cognitivos e sensoriais aparentes. Esta dificuldade de aprendizagem não é uma doença, mas um distúrbio com uma série de características, os primeiros sintomas deste distúrbio, que pode ser um atraso no desenvolvimento da fala nem sempre é observado pelas famílias e que, muitas vezes, atribuem o atraso a características familiares.

.Distúrbios de aprendizagem de leitura e escrita estão relacionados a uma falha o processo de aquisição e desenvolvimento do aprendizado formal da leitura, da escrita e do raciocínio lógico-matemático. A leitura requer a interação de diversos processos neurológicos, psicológicos, etc, e alterações em algum ou alguns desses processos podem prejudicar o processo de desenvolvimento e aquisição da capacidade de leitura. Estudiosos do assunto concordam que há uma forte probabilidade de que o fator genético tenha participação na ocorrência do distúrbio, pois vários estudos têm demonstrado que crianças com dificuldades de aprendizagem têm um parente próximo com o mesmo problema.

O presente artigo aborda as fases do processo de alfabetização e as dificuldades encontradas pelas crianças disléxicas na  condução deste processo.  

 

Palavras chave: dislexia, distúrbio de aprendizagem, distúrbio na aquisição da leitura e da escrita.

INTRODUÇÃO

 O estudo da dislexia não é recente em nossa história, apesar de parecer que atualmente está na moda. Em 1925 o Dr. Samuel T. Orton, neurologista americano, apresentou a primeira definição sobre a dislexia. A partir de então a dislexia começou a ser cada vez mais estudada, diagnosticada com maior precisão, permitindo assim auxiliar cada vez mais cedo as crianças disléxicas. Deve-se esclarecer que a dislexia não é uma doença, mas sim um distúrbio de aprendizagem, que só ocorre na ausência de problemas cognitivos, mas que apesar de inteligência normal ou superior e instrução adequada as crianças falham no processo de aquisição da linguagem.

Assim, o presente artigo se constitui como uma elaboração teórica a respeito da dislexia, perpassando por grandes estudiosos como Selikowitz, Shaywitz, Ciasca e Capovilla. O artigo tem como objetivo principal abordar a dislexia, uma dificuldade específica de aprendizagem, que pode se iniciar ainda na aquisição da linguagem falada, a fim de ajudar a todos aqueles que trabalham com crianças entendam o problema e possam estar atentos a quaisquer alteração/dificuldade no  desenvolvimento infantil, mas que esta atenção não seja algo opressivo para a criança, mas que simplesmente se possa prevenir um sofrimento futuro, tanto para as crianças como para seus pais. Ressalte-se ainda a importância de um clima facilitador, livre de pressões e cobranças, com incentivos e elogios a cada esforço feito pela criança.

Há uma diferença importante entre a dislexia adquirida (afasia) que é a conseqüência de um traumatismo craniano, tumor, derrame, acidente vascular, etc. e a dislexia de evolução ou somente dislexia que é congênita e hereditária. Neste artigo iremos contemplar somente a dislexia de evolução.

 

 

A DISLEXIA

 

A dificuldade na leitura foi a primeira forma de dificuldade específica de aprendizagem a ser descrita. Em 1878, o Dr. Kussmaul, médico alemão, descreveu um homem que era incapaz de aprender a ler, apesar de possuir inteligência normal e ter recebido uma educação adequada. A isso o médico alemão denominou de cegueira da leitura. Nove anos depois, em 1887, o Dr. Berlin, também na Alemanha, usou o termo dyslexia para definir essa dificuldade. (SELIKOWITZ, 2001, p. 8)

Na Inglaterra o primeiro relato de uma dificuldade específica de aprendizagem também se refere a adultos com dificuldade de leitura. Um cirurgião oftalmologista escocês, Dr. James Hinshelwood, publicou, em 1895, um relatório e denominou a condição de cegueira da palavra. Sua dissertação propiciou a primeira descrição de dificuldade específica de leitura em uma criança, um ano mais tarde, quando o Dr. Pringle Morgan descreveu as dificuldades de leitura de um menino de catorze anos. ( SELIKOWITZ, 2001,  p. 8)

  Shaywitz (2003) fala que durante o primeiro quarto do século XX o interesse em focalizar a dificuldade específica de leitura continuou e em 1925 o neurologista Samuel T. Orton apresentou, pela primeira vez uma definição para a dislexia:

É uma dificuldade que ocorre no processo de leitura, escrita, soletração e ortografia. Não é uma doença, mas um distúrbio com uma série de características. Torna-se evidente na época da alfabetização, embora alguns sintomas já estejam presentes em fases anteriores. Apesar de instrução convencional, adequada inteligência e oportunidade sociocultural e ausência de distúrbios cognitivos fundamentais, a criança falha no processo de aquisição de linguagem. A dislexia independe de causas intelectuais, emocionais ou culturais. É hereditária e a maior incidência é em meninos na proporção de três para um (ou seja, a cada três meninos que nascem com dislexia, apenas uma menina nasce disléxica. Orton (1925 apud IANHEZ e NICO, 2002,  p. 21)

Atualmente a definição mais utilizada em neuroanatomia e neuropsicologia é a instituída pela IDA - International Dislexia Association, em 1994:

A dislexia é um dos muitos distúrbios de aprendizagem. É um distúrbio específico da linguagem, de origem constitucional, caracterizado pela dificuldade de decodificar palavras simples. Mostra uma insuficiência no processo fonológico. Essas dificuldades na decodificação de palavras simples não são esperadas em relação à idade. Apesar de instrução convencional, adequada inteligência, oportunidade sociocultural e ausência de distúrbios cognitivos e sensoriais fundamentais, a criança falha no processo de aquisição da linguagem com freqüência, incluídos aí os problemas de leitura, aquisição e capacidade de escrever e soletrar. IDA (1994 apud IANHEZ e NICO, 2002 p. 23 )

Segundo Selikowitz (2001, p. 4) uma dificuldade específica de aprendizagem é “uma condição inesperada e inexplicável, que ocorre em uma criança de inteligência média ou superior, caracterizada por um atraso significativo em uma ou mais áreas de aprendizagem”.

Para Ciasca (2003, p. 55) “os distúrbios específicos da aprendizagem são aqueles relacionados às incapacidades escolares de crianças que tenham iniciado a aprendizagem formal da leitura, da escrita e do raciocínio lógico-matemático. Portanto, estão relacionados a uma falha no processo de aquisição e desenvolvimento dessas atividades”.

Para Selikowitz (2001) as áreas de aprendizagem envolvidas nas dificuldades específicas de aprendizagem podem ser divididas em dois grupos. O primeiro refere-se às habilidades acadêmicas básicas, como leitura, escrita, ortografia, aritmética e linguagem tanto a compreensão como a expressão. O segundo grupo envolve a aprendizagem de habilidades como a persistência, organização, controle de impulso, competência social e a coordenação de movimentos. O desajeitamento, a desorganização, a falta de concentração e de autocontrole são sinais de uma possível dificuldade específica de aprendizagem. A criança pode ser inquieta, impulsiva e incapaz de se concentrar em uma tarefa por um determinado período de tempo, pode ter muita dificuldade para colocar as coisas na ordem certa ou para aprender a diferenciar as noções de direita e esquerda, mesmo com idade em que outras crianças já dominam essas habilidades facilmente.

Segundo Selikowitz (2001) uma dificuldade de aprendizagem, por si só não caracteriza a dislexia, no diagnóstico devem-se considerar fatores adversos que podem levar a essa dificuldade, tais como; déficits sensoriais (visão ou audição), deficiência motora (paralisia cerebral, distrofia muscular), desvantagem ambiental (ensino deficiente, ausências freqüentes ou prolongadas da escola), fatores culturais adversos ou desequilíbrios emocionais. Assim um diagnóstico de dislexia é um diagnóstico por exclusão A mesma autora salienta que cada criança com distúrbio ou dificuldade específica de aprendizagem é única e o processo diagnóstico deve incluir uma avaliação de suas necessidades e capacidades individuais.

Fonseca (1995) diz que “a leitura é o resultado da interação de diferentes vias neuronais e, portanto, depende de estruturas corticais íntegras. Assim o difícil ato de ler, requer vários processos neurológicos, psicológicos e sócio-ambientais para ser efetivo e alteração em alguns desses aspectos podem gerar prejuízos no processo de desenvolvimento e aquisição da capacidade de ler”. Fonseca (1995 apud CIASCA, p. 56)

Segundo Shaywitz (2003) nem sempre o primeiro sinal de dislexia é notado pelas famílias, este sinal pode ser um atraso na fala não detectado corretamente ou atribuído a uma característica familiar ou pessoal. Em seu desenvolvimento normal as crianças dizem as suas primeiras palavras em torno de um ano de vida e as primeiras frases entre um ano e meio e dois anos. Além do atraso na fala a autora ressalta a dificuldade na pronúncia como outro aspecto a ser observado, a linguagem de bebê pode ser um sinal precoce, quando permanece além do tempo normal. A criança de cinco ou seis anos não deve ter problemas em pronunciar corretamente a maioria das palavras.

Selikowitz (2001) também ressalta a lentidão a fala como um aspecto importante a ser observado. A criança pode encontrar dificuldade para se expressar ou sua fala pode ser imatura e confusa, ás vezes é a dificuldade da criança em entender a linguagem que é primeiramente percebida, ela pode ficar confusa diante de uma situação complexa e não entender histórias próprias para a sua idade.

De acordo com Shaywitz (2003) a criança disléxica tem problemas quando entra na estrutura sonora das palavras, sendo assim menos sensível à rima. A sensibilidade à rima implica uma conscientização de que as palavras podem ser divididas em segmentos menores de som e que palavras diferentes podem compartilhar um som comum. Essa sensibilidade é um indicador precoce de estar pronto para a leitura. Essa dificuldade de linguagem não se relaciona com a inteligência, é apenas uma insensibilidade à estrutura sonora da linguagem. A dificuldade está na linguagem expressiva e não no pensamento. A criança sabe o que quer dizer, o problema está na busca da palavra certa. Ainda para a autora a dificuldade de linguagem acompanha o amadurecimento da criança.

Para Shaywitz (2003, p.111) “os fonemas indistintos interferem na capacidade de o leitor aprender os nomes e os sons das letras do alfabeto. Essa série de realizações – aprender o alfabeto, os nomes das letras e depois os sons que elas fazem – marcam uma transição importante para o leitor em formação.” Assim, esperamos que as crianças identifiquem as letras pelo seu nome e pelos seus sons, esse é o início da leitura. Portanto se há alguma dificuldade, seja ela uma falha ou um atraso, em adquirir essa habilidade, isso pode ser um sinal de um problema de leitura.

Segundo Shaywitz (2003) a história familiar é um dos fatores a ser considerado ao se avaliar uma criança, pois a dislexia é comum em muitas famílias. Se há um parente disléxico na família, isso aumenta a probabilidade de que a criança em questão também seja disléxica. Mas isso só quer dizer que a criança que carrega o gene corre mais risco, pois a expressão final da dislexia depende da interação entre a conformação genética e o seu ambiente.

Tanto Shaywitz (2003) como Selikowitz (2001) concordam que há uma forte evidência de que o fator genético tenha participação na causa das dificuldades específicas de aprendizagem, pois vários estudos têm demonstrado que crianças com dificuldades específicas de aprendizagem têm um parente próximo com o mesmo problema. Em todos os tipos de dificuldades específicas de aprendizagem, a incidência de meninos supera numericamente a de meninas, numa proporção de três para uma.

O processo de alfabetização basicamente compreende três fases; a logográfica, a alfabética e a ortográfica. De acordo com Frith (1985 apud CAPOVILLA ) “há três estratégias básicas para as três etapas de aquisição de leitura e escrita”. A primeira estratégia é a logográfica que se desenvolve na fase logográfica. A segunda é a fonológica e é desenvolvida na fase alfabética. E a terceira é a lexical que se desenvolve na fase ortográfica.

A primeira estratégia implica no reconhecimento das palavras por meio de esquemas idiossincráticos sendo que na ausência de tais pistas contextuais a palavra pode não ser reconhecida, a palavra também é tratada como um todo e a substituição de letras pode passar despercebida.Frith (1985 apud CAPOVILLA, p. 10)

Shaywitz (2003) também fala sobre os diversos estágios de evolução da leitura. O estágio logográfico ou memória visual é quando a criança começar a ler ela não usa o conhecimento dos nomes das letras ou dos sons das letras para “ler” uma palavra. Essas crianças usam como base os sinais visuais de vários tipos, como McDonald’s. Assim ela reconhecerá umas poucas palavras sempre estando associadas a um sinal visual altamente diferenciado. Elas não prestam atenção à própria palavra, mas memorizam algum sinal visual a ela relacionado, dependendo deste para memorizar e depois reconhecer a palavra. Mas, somente depender da memorização não será suficiente.                    

    Frith (1985) fala da segunda estratégia que é a fonológica e que se desenvolve na fase alfabética. Esta implica em analisar as palavras em seus componentes, as letras e os fonemas, e utilizar para codificação e decodificação, regras de correspondência entre letras e fonemas. Frith (1985 apud CAPOVILLA, p. 10)

      Para progredir na leitura a criança terá que aprender como o código alfabético ou fonológico funciona, ou seja, ligar as letras aos sons e depois pronunciar as palavras em voz alta. Para ler uma palavra a criança precisa prestar atenção a todas as letras da palavra, para que possa conectá-las aos sons que ouve quando a mesma é pronunciada e, assim, possa decodificá-la. Por isso quando as crianças aprendem o nome das letras fazem uma leitura primitiva, segundo Shaywitz (2003) porque ela não presta atenção a todas as letras que compõem a palavra, usa somente o seu conhecimento dos nomes das letras e não os seus sons. A leitura não é somente a associação de letras e sons. A criança deve construir seu vocabulário de leitura de modo que ao final possa ler palavras complexas, longas e desconhecidas. Ao estocar cada letra transformada em som terá acumulado em seu cérebro um complexo enorme de representações para as letras.

Shaywitz (2003) fala que depois a criança passa ao estoque de imagens de letras individuais associadas a sons específicos ao armazenamento de um número cada vez maior de grupos de letras. Então, após ter lido muito e decodificado com sucesso as palavras terá acumulado um completo estoque de palavras inteiras. Assim quando a criança olhar uma palavra impressa irá relacioná-la a uma palavra estocada em seu cérebro. A palavra é imediatamente reconhecida e entendida levando em consideração a ortografia e o seu significado.

Para Selikowitz (2001) quando isto acontece, elas podem começar a superar o sistema fonológico e ter acesso ao léxico sempre que elas lêem uma palavra familiar. Logo, elas raramente utilizarão o sistema fonológico que é relativamente lento e estarão lendo automaticamente como um adulto.

Frith (1985) ainda descreve a terceira estratégia como sendo a lexical que se desenvolve na fase ortográfica e implica na construção de unidades de reconhecimento nos níveis lexical e morfênico. Assim, partes das palavras podem ser reconhecidas diretamente sem conversão fonológica. (apud CAPOVILLA pg 11).

De acordo com Capovilla (2000) quando uma nova estratégia se desenvolve, a anterior não desaparece, mas sua aplicação e importância relativas diminuem. Assim, as estratégias não são mutuamente excludentes e podem coexistir simultaneamente no leitor e no escritor competentes. Portanto, a estratégia a ser usada em qualquer momento depende do tipo de item a ser lido ou escrito.

Segundo Shaywitz (2003) para os disléxicos, o processo de aprendizagem da leitura e de se tornar um bom leitor é muito lento. Inicialmente há uma dificuldade em relacionar as letras aos sons, o que interfere na aquisição da leitura. Depois quando a criança disléxica começa a ler, ela começa a construir o seu próprio estoque de letras e representações das palavras, só que o disléxico relaciona poucas letras de uma palavra a seus sons. Por isso o armazenamento dessa palavra é incompleto, sendo difícil para ele localizar onde está armazenado o som que corresponde à palavra ou mesmo que a reconheça caso se depare com a mesma palavra em um outro momento.

Portanto, mesmo quando o disléxico é capaz de decodificar as palavras com precisão ele ainda não é rápido o suficiente na leitura. A deficiência fonológica afeta não apenas a aprendizagem, mas também a capacidade dessas crianças tornarem-se leitoras competentes.

A dislexia apresenta como sintomas mais comuns: desempenho inconstante, atraso na aquisição da leitura e da escrita, lentidão nas tarefas de leitura e escrita, mas não nas orais, dificuldade com o som das palavras e, em conseqüência com a sua soletração, escrita deficiente (com trocas, omissões, junção e aglutinação de fonemas), dificuldade na associação de um som ao símbolo, dificuldade com a rima e aliterações, discrepância entre as realizações acadêmicas, as habilidades lingüísticas e o potencial cognitivo, dificuldades em estabelecer relações, dificuldades para a organização seqüencial dificuldade em nomear (objetos, tarefas, etc.), dificuldade em organizar-se (no tempo, espaço e direção), dificuldade em organizar suas tarefas, dificuldade em cálculos mentais, dificuldade de memorização (de mensagens, número de telefone), dificuldade de efetuar anotações ou efetuar tarefa que sobrecarregue a memória imediata, desconforto ao tomar notas e/ou relutância para escrever, persistência no mesmo erro, mesmo com ajuda profissional. (IANHEZ e NICO, 2002, p. 26/7)

Assim pode-se suspeitar da ocorrência de um quadro de dislexia quando uma criança apresenta alguns desses sintomas, apesar de possuir inteligência adequada e oportunidades de ensino e aprendizagem. Estes sintomas podem se manifestar em cada indivíduo isoladamente ou combinadas de modo diferenciado. (IANHEZ e NICO, 2002, p. 26)

De acordo com Shaywitz (2003) para se avaliar se uma criança é disléxica ou não deve-se avaliar amplamente a mesma, lembrando sempre da própria definição da dislexia que é “uma dificuldade de leitura de uma criança ou adulto que em todos os outros aspectos possui boa inteligência, forte motivação e escolaridade adequada.” (SHAYWITZ, 2003, p. 110)

Para a autora o primeiro aspecto a ser avaliado é o teste de leitura. A leitura envolve a decodificação que é a capacidade de identificação de palavras e a compreensão que é a capacidade de entender o que é lido. Portanto a avaliação se deve ao fato da criança ler bem e do quanto ela compreende do que lê. A capacidade de ler fluentemente vai adquirindo maior importância na medida em que a criança amadurece.

Shaywitz (2003) fala que para uma criança em idade escolar a avaliação de leitura determina primeiramente a precisão de sua decodificação de palavras (leitura de palavras isoladas). Inicialmente são palavras simples, depois complexas e finalmente pseudopalavras. A importância das pseudopalavras para se diagnosticar a dislexia se dá pelo fato da criança nunca ter visto essas palavras e, portanto, não as poderia ter memorizado. A função dessas palavras (pseudopalavras) é que apesar de não terem significado, são possíveis de se pronunciar em voz alta, isto é, conectar letras a sons, isto se a criança tiver adquirido a capacidade de decodificação fonológica ou processamento de palavras, ou seja, a maneira como se analisa e se produzem as palavras. Para ler as pseudopalavras é necessário que se entre na estrutura sonora da palavra e pronunciá-la, fonema a fonema.

A autora aborda também os testes de compreensão de leitura, que na maioria das vezes é realizado em silêncio. Assim depende-se menos da pronúncia de cada palavra do que da capacidade de inferir o significado do trecho a fim de responder as questões baseadas nele. Por isso quem passa pelo teste pode usar o contexto para adivinhar o significado de algumas palavras e assim responder às questões corretamente. Por isso os disléxicos em geral têm melhor desempenho nos testes de compreensão do que nos testes de decodificação de palavras isoladas.

Os testes de leitura oral também são relevantes para se identificar qualquer incerteza que uma criança possa ter ao decodificar uma palavra. Esses testes forçam o leitor a pronunciar todas as palavras e o avaliador pode observar a dificuldade que o disléxico tem ao tentar decodificar cada palavra do texto, é possível ouvi-lo pronunciar palavras misturadas, inventadas ou ignorar algumas palavras. Há também a falta de cadência ou inflexão na leitura.

Para Selikowitz (2001) o processamento da informação quando uma palavra impressa é lida em voz alta ela é transmitida através dos olhos para o cérebro, onde passa por algumas etapas; primeiro ela é analisada para verificar se é ou não uma palavra familiar, se for familiar ela é processada ao longo do caminho lexical, se a palavra for irreconhecível será processada ao longo de um caminho fonológico. Se a palavra é familiar ela é processada ao longo do caminho lexical, com a utilização de um dicionário que está conectado a um sistema semântico onde se encontram os significados de todas as palavras já conhecidas pelo indivíduo devidamente armazenadas; uma vez que o significado é relacionado com a palavra, ela pode ser sonorizada pelo gerador da fala, onde os mecanismos necessários para falar a palavra são iniciados pelo cérebro.

Já uma palavra não familiar pode ser processada pelo caminho fonológico, lá as letras sem significado são separadas em componentes sonoros chamados segmentação fonêmica. Antes que a palavra possa ser falada, sons devem ser reunidos de volta, a isso chamamos de combinação fonêmica. A fala é então iniciada pelo gerador da fala da mesma forma como para as palavras familiares.

Shaywitz (2003) alerta que as crianças disléxicas também apresentam dificuldades com a ortografia, ou seja, quando têm que converter sons em letras. Selikowitz (2001) também compartilha da mesma opinião em termos ortográficos dizendo que se a letra for muito imatura ou ilegível, apesar de grande esforço ou se a criança só conseguir escrever claramente se o fizer extremamente devagar, pode ser um sinal de dislexia.

Segundo Shaywitz (2003) a capacidade fonológica das crianças segue um desenvolvimento natural e gradual e é de avaliação relativamente direta ao longo do desenvolvimento iniciando por volta dos quatro anos. A sensibilidade fonológica se refere à capacidade de se concentrar mais nos sons do que no significado da palavra falada. À medida que a criança adquire suas habilidades fonológicas, adquire a capacidade de se concentrar em partes cada vez menores das palavras e não só na palavra como unidade inteira, indivisível. Num primeiro momento a criança consegue separar apenas o som que inicia as palavras, depois os sons finais das palavras e por fim os sons mediais.

Para a mesma autora é também importante se avaliar a memória fonológica, ou seja, avaliar a capacidade da criança armazenar temporariamente uma série de números ou palavras que são apenas apresentados oralmente a ele, tanto os números falados e as palavras são armazenados como fonemas. Quando se lê uma frase, têm que se guardar várias unidades de informação na mente para juntá-las e entender o que se acabou de ler. Ou seja, primeiro a criança decodifica as letras em sons depois guarda esses sons na memória enquanto tenta decodificar as letras restantes da palavra e depois, pega esses sons armazenados, combina-os e forma a palavra em questão. As palavras são principalmente armazenadas com base em seus sons, de forma que a capacidade de guardar as palavras temporariamente é realmente uma espécie de habilidade fonológica. Quanto mais bem articulados forem os fonemas, mais eficientemente as palavras serão buscadas.

O outro aspecto do processo fonológico chama-se acesso fonológico. A facilidade que a criança tem de nomear objetos com rapidez se relaciona aos tipos de processos que ela deve executar à medida que lê, quando deve ser capaz de ir até a memória de longo prazo e rapidamente buscar os fonemas lá armazenados.

Além da fonologia, o conhecimento que a criança tem dos nomes das letras e dos sons atua como um valioso guia para demonstrar o quanto ela está pronta para ler.

Selikowitz (2001) ressalta que quando o diagnóstico é feito corretamente ele dá aos pais a satisfação de saberem que o problema de seu filho é uma entidade reconhecida e que não é culpa deles nem de seus filho. Isto é importante porque apesar de serem tão capazes em algumas coisas têm dificuldades específicas em outras e isto não quer dizer que a criança é preguiçosa ou que foi mal ensinada. Como entidade reconhecida a dislexia possui uma legislação de proteção aos portadores e facilita a existência de grupos de apoio.

Selikowiyz (2001) ressalta ser de fundamental importância das crianças com dificuldades específicas de aprendizagem terem elevada auto-estima, se essas crianças acreditarem na sua capacidade reagirão mais intensamente, assim terão mais chances de alcançar o êxito. Em contra partida uma baixa auto-estima pode levar a um ciclo vicioso de fracassos. A criança tenta fugir do fracasso evitando os desafios, o que reforça o seu fracasso. Isto resulta num fraco aproveitamento, o que reforça o sentimento de incapacidade. Assim concluímos ser extremamente importante que essas crianças recebam estímulos, incentivos e elogios tanto dos pais como dos professores não somente quando acertam, mas também pelo seu esforço e dedicação em superar suas dificuldades.

 

CONCLUSÃO

A tipificação de um quadro de dislexia é de extrema importância para o diagnóstico e acompanhamento de crianças com este distúrbio de aprendizado de leitura e escrita. Assim o profissional envolvido deve ter pleno conhecimento das causas e das características da deficiência, o conhecimento do pensamento dos pesquisadores que abordaram o tema torna-se assim um auxílio de inestimável valor. Do mesmo modo que é importante o correto reconhecimento do distúrbio, é também importante o conhecimento dos mecanismos dos processos de aquisição de leitura e escrita e das fases deste aprendizado.

Neste artigo procuramos abordar estes ítens de modo didático, visando facilitar a sua compreensão. Pelos textos que serviram de base para a elaboração do presente artigo podemos concluir ser de extrema importância a análise da criança em sua globalidade e não segmentada, analisando a sua totalidade e não  apenas um aspecto específico. Deste modo os profissionais envolvidos neste processo precisam ser extremamente cuidadosos na análise e diagnóstico da dificuldade de aprendizagem apresentada pela criança, sempre é conveniente enfatizar que o diagnóstico deve ser feito por uma equipe multidisciplinar, envolvendo; psicólogo, fonoaudiólogo, psicopedagogo e eventualmente neurologista e outros profissionais da área médica.

Ao elaborar este artigo tivemos como meta contribuir para a tipificação do problema da dificuldade de aprendizagem de leitura e escrita, auxiliando os profissionais envolvidos e contribuindo para a sua competência no assunto, procurando ainda despertar o seu interesse para o aprofundamento de seus conhecimentos através de outras fontes de consulta.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 

CAPOVILLA, Alessandra Gotuzo Seabra. CAPOVILLA. Fernando César. Problemas de leitura e escrita. São Paulo: Memnon, 2000.

CIASCA, Sylvia Maria (org.). Distúrbios de Aprendizagem. Proposta de Avaliação Interdisciplinar. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2003.

IANHEZ, Maria Eugênia, NICO, Maria Ângela. Nem Sempre é o que Parece. São Paulo: Campus/Elsevier, 2002

SILIKOWITZ, Mark. Dislexia e Outras Dificuldades de Aprendizagem. Rio de Janeiro: Revinter, 2001.

SHAYWITZ, Sally. Entendendo a Dislexia. Porto Alegre: Artmed, 2003.
 
 
 
 
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